Programação

 

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Cine Diamantina 2017: Cinema é cachoeira, diamante e acesso

Na Chapada a paisagem define – o semblante do homem, sua fome e forma de criar. Na Chapada, de maneira literalmente geológica, encontra-se a matéria prima das imagens em movimento antes do cinematógrafo precipitar o primeiro giro e faiscar a lente. Há por lá, como que contaminando os modos de viver, cachoeira e diamante numa expressão de natureza, legado e intriga. Elementos com potência para fazer figurar todo e qualquer drama a ser representado. Cachoeiras dinâmicas, belas e contínuas – para invocar o maestro de Cataguases Humberto Mauro. Diamantes indomáveis, monométricos e de brilho-mor – para invocar os gregos, mestres na etimologia do termo e na origem da encenação; bem como os ourives, mestres locais que poliram a pedra e do lastro de fortuna do puro carbono também fizeram ferramenta, instrumento de trabalho para fabricar outras tecnologias e sintaxes.

Assim mesmo, no encanto e na precisão das mitologias reais da Chapada, projetam-se as linhas de ação do Cine Diamantina 2017, não deixando de assumir-se no vapor do calendário nacional de golpes e galopes como um gesto político. Sim, quando política quer dizer cineclube (assistir e debater), escola (audiovisual articulado à formação), memória (rever para avançar) e resistência (uma mostra audiovisual onde não há salas de projeção). Para tratar de infância, ecologia e – não menos – de cinema, tudo parte da tela e vai para ela. A temporada ocupa três semanas da agenda de comunidades em diferentes municípios e foi concebida em diálogo com educadores e representantes de cada lugar.

Tomando o paradigma do popular como desafio, e não como concessão, quatro mostras temáticas repercutem veios recentes, remotos e de pegadas diversas da produção brasileira: Curta a Infância!, em cartaz no ambiente escolar, enxerga professores e alunos de oito a dez anos plugados no brincar como pedagogia de pertencimento e descoberta rumo a territórios da memória pessoal, social e natural dos infantes; Eco Cine aponta diretamente à pauta ambiental de cada cidade, com programação específica por ponto de parada versando sobre a questão da água, o agronegócio e os incêndios florestais; com foco regional, Cine Baiano propõe-se a apresentar os diamantes da casa, fazendo apostas em novos talentos e repercutindo nomes e trabalhos em ascensão ou já reconhecidos; e a mostra Cine Nacional tenta pluga o espectador num breve e estimulante inventário do que se fez de relevante em 12 estados brasileiros nos últimos dois anos, às vezes um pouco além, demarcando um jogo de presença e ausência – subjetiva, histórica e, uma vez mais, política – que, seja na ficção ou na produção documental, procura tanto quanto possível eleger a essência feminina como diferencial da experiência.

A recompor ou estilhaçar a moldura do discurso, são trabalhos na premência de chegar à tela e, a meio caminho do que disse Guy Debord, pressentem a imagem não como um espetáculo, mas um meio para a emergência do extraordinário na natural ecologia que se estabelece entre os indivíduos em seus processos de sociabilidade. Dito de outro modo, o Cine Diamantina busca encaixar um discurso em que a imagem possa ser vista no arcabouço de sua gênese sem prejuízo do olhar como inefável prazer. Aqui entendida sempre como uma narração que não deixar de envolver a dimensão sonora, a imagem não é a verdade nem o simulacro. Mas um terceiro ponto do sentido a se constituir, e que define a condição de existência do humano.

Entre a abstração e a realidade, a provocação maior é ver e matutar juntos – em escala menor, mas a ser observada com atenção, também criar e produzir juntos no contexto das oficinas. Assim, os números que materializam a carta de intenções do Cine Diamantina e prefiguram sua vontade de chegar lá, de fazer existir acesso ao audiovisual brasileiro onde não há salas de cinema: mais de 50 filmes e 40 sessões compondo 60 horas de programação, ao longo de três semanas, para um público de quatro mil pessoas. As quatro oficinas a serem realizadas irão somar 80 horas de atividade acompanhada para 125 alunos com idade a partir de oito anos.

Primeiro evento com este nome, mas calçado em seis outras exitosas edições de imersão audiovisual na região da Chapada, o Cine Diamantina 2017 tem a pretensão de expandir interiores geográficos para uma realidade cinematográfica e audiovisual brasileira – com brios e beleza de diamante e cachoeira.

Marcos Pierry

Curador

Graduado em jornalismo pela UFBA, Marcos Pierry dedica-se à pesquisa e à crítica cinematográfica desde o ano 2000. Escreveu dissertação de mestrado sobre o Super-8 na Bahia (ECA/USP) e desenvolve pesquisa de doutorado (EBA/UFMG) sobre as relações entre o cinema moderno no Brasil e o samba. Roteirista, diretor, apresentador e repórter de TV, atuou em emissoras de Belo Horizonte (Rede Minas), Salvador (TVE Bahia) e São Paulo (RedeTV), realizando o Cinestesia (TVE Bahia) e outros programas. Foi professor de cinema na PUC/BH e na FTC/BA. Escreveu para O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, A Tarde, Gazeta Mercantil, Tribuna da Bahia, Bravo!, Elle, Manchete e Agência Reuters. Dirigiu o curta-metragem O Saque (2003). É co-autor de A Cana e o Fusca (Goethe Institut, 2009) e A Vida Com TV (Senac-SP, 2003). Co-organizador de Escritos de Cinema, do crítico André Setaro (Azougue, 2010), em três volumes. Curador de mostras audiovisuais, entre elas, Made in Brasil (2004), Marginália 70 (2003), Cinema de Terreiro (2013) e 50 Anos do Golpe (2014).